Algo valioso – Uma reflexão sobre os Recreios com Tralha

“Aquilo tem muito valor”, “Isto já não vale nada!”

O que tem valor para umas pessoas pode não ter valor algum para outras. Mais ainda, o mesmo objeto pode servir de muito hoje e não servir de nada amanhã. O valor ganha-se e perde-se, contudo, são as próprias pessoas que dão ou atribuem o valor às coisas.

Valor comercial, valor monetário, valor sentimental, valor simbólico…

No mundo dos adultos, os materiais que disponibilizamos às crianças para brincarem no recreio da escola, aparentemente, não têm grande valor. São tralha. Parece que não servem para nada. No entanto, durante o brincar, algo de baixo valor comercial pode vir tornar-se muito valioso…

Esta reflexão é sobre isso: o valor que as crianças dão àquele material.

Quem aparece ali para brincar atribui valor aos materiais soltos de forma quase automática. Desde logo, as crianças começam por recolher, juntar, guardar, colecionar o que está disponível. Qualquer coisa pode potencialmente servir para algo, ser útil! Estas crianças acham que quem possui coisas de muito valor tem mais poder. Ninguém lhes disse isso, elas simplesmente sabem e vivenciam-no na brincadeira: quem tem coisas de muito valor tem mais possibilidade de construção, mais poder de troca, de negociação, mais gente a querer interagir consigo, etc. Mas que coisas são essas?!

Este valor das coisas depende muito de cada situação, de cada descoberta que fazem da sua utilidade e potencialidade. Os vários objetos e materiais são valorizados ou desvalorizados, fruto das escolhas de quem está a agir sobre eles.

Um dia, por exemplo, esgotou-se a fita-cola. Este material era algo de que todos precisavam, todos pediam, todos procuravam como se fosse um tesouro. Servia para colar partes de estruturas, juntar pedaços de cartão, amarrar, fazer espadas, etc. No momento em que deixou de existir, o “sistema de valores” daquele ambiente alterou-se: um dos materiais que até então era deixado a um canto, ou espalhado no chão, passou a ser mais valorizado – o trapilho! Este começou aos poucos a tornar-se valioso devido ao desaparecimento da fita-cola. Podia substituí-la na sua função de unir partes, pedaços, etc. O trapilho até se revelou mais útil para algumas funções, mas não foi logo tão estimado como a fita-cola, uma vez que as crianças não o achavam igualmente eficaz, ou porque requeria uma habilidade que alguns ainda não dominavam (fazer nós) …, mas passou a ser uma alternativa possível. 

Neste recreio, muitos outros valores se “alevantam”: o valor arquitetónico de uma caixa de cartão (ou pneus) para construir um abrigo; o valor simbólico de um botão dourado, que serve de amuleto mágico que resolve problemas; o valor monetário das rolhas de cortiça que servem de moedas para ir às compras na loja; o valor simbólico de um tecido que quando colocado aos ombros, me transforma num super-herói; o valor relativo de cada objeto que serve para realizar uma troca negociada por outro objeto; o valor especial do giz colorido, que por ser raro se torna valioso por si só.

Aquilo a que damos mais valor é o que nos move, é o que nos motiva a agir. Não podemos determinar o valor que as crianças dão àquele material, nem àquele tempo, nem àquele ambiente. Não temos esse controlo, mas temos a escolha (e talvez o dever) de lhes proporcionar o acesso a momentos como esse. Momentos valiosos.

Será possível alterar o valor que a sociedade dá ao momento de brincar destas e de todas as crianças? 

Joana V. Pereira, doutoranda da Faculdade de Motricidade Humana e conselheira do 1,2,3 Macaquinho do Xinês

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