Macaquinho no Brincapé – Conversa com o Manel e a Margarida

Após o fecho das escolas em meados de Março de 2020, a equipa do 1, 2, 3 Macaquinho do Xinês quis conversar com uma das crianças da Escola Básica Raul Lino (Alcântara, Lisboa) participante no projeto Brincapé Com Tralha apoiado pelo BIPZIP. Durante este projecto foram realizadas sessões semanais de transformação do recreio com materiais soltos. A intervenção terminou abruptamente a 13 de Março, aquando do início do Grande Confinamento. No dia 30 de Abril de 2020, a equipa do 1, 2, 3 Macaquinho do Xinês (MX) conversou por vídeo-chamada com o Manel do 3º ano e a sua mãe Margarida sobre as suas impressões acerca da participação no projecto. Abaixo encontra-se uma parte da transcrição da conversa.

MX – A primeira coisa que eu queria começar por dizer é que é sempre bom quando nós temos feedback dos pais, porque nós vemos nas crianças, Manel, eu vejo quando tu estás a brincar com os nossos materiais e quando estás com os teus amigos, que tu te estás a divertir, portanto eu acho que, tendo em conta o trabalho que nós fazemos, eu já estou a ter uma recompensa, já sinto que estou a fazer alguma coisa que está a fazer bem a alguém. Depois tens que me dizer se é só impressão nossa ou se realmente foi divertido ou se foi cansativo, etc.
Manel – Algumas vezes é impressão vossa.
Margarida – Mas achas que algumas vezes é divertido?
Manel – Algumas vezes.
Margarida – E outras vezes?
Manel – Não.
Margarida – E o que é que acontece quando não estás divertido? Não estás divertido porquê?
Manel – Não sei.
Margarida – Tem a ver com as propostas que o Brincapé faz?
Manel – Não. Tem a ver com os meus amigos.
Margarida – Amigos?
Manel – Mais ou menos amigos. É só por causa do dinheiro.
Margarida – Ai o dinheiro! Pessoal, vocês fazem muitas propostas com dinheiro, Brincapé.
MX – É tudo à volta do dinheiro. Não, não, eles é que produzem muito dinheiro. Aquilo é tipo o Banco Nacional a produzir moeda.
Manel – Quando chegamos lá é só “busca dinheiro, busca dinheiro, busca dinheiro!”.
Margarida – Nós encontramos várias coisas, aliás, foi assim que começamos a comunicar mais porque ele (o Manel) diz “olha, guarda isto porque isto é dinheiro para o Brincapé.”.
Manel – É melhor guardar porque daqui a um bocado não há dinheiro.
MX – Mas o que é que tu compras com esse dinheiro? O que costumavas comprar?
Manel – Guardamo-lo.
MX – Okay. Acumulam-no?
Manel – Sim.
MX – Nunca tentas trocar?
Manel – Não. Às vezes, quando é em caso crítico.
MX – Mas há casos críticos!
Manel – Críticos, quando não temos casa.
Margarida – Quando não têm casa, então quer dizer que também fazem casas.
Manel – Com cartão.
MX – Tenho uma pergunta, que tipo de material precisas normalmente? Isto é importante para sabermos que material devemos pôr nas escolas. Que material é importante?
Manel – Pneus, caixas e cartão também.
Margarida – O cartão é importante?
Manel – O cartão é super importante.
MX – E fita-cola?
Manel – Fita-cola também é preciso.
Margarida – E cordas?
Manel – Não, cordas não é preciso.
MX – Foste usando sempre os mesmos materiais da mesma maneira? Ou todas as vezes a brincadeira era diferente?
Manel – Sempre igual.
MX – Poderias descrever essa brincadeira com as tuas próprias palavras?
Manel – Não. Não consigo.
Margarida – Quando eles sabiam que era à quinta-feira, já sabiam que iam fazer qualquer coisa.
Manel – Eu queria que fosse todos os dias, e não só à quinta-feira.
Margarida – Mas quando chegava a quinta-feira, à hora do Brincapé, o que faziam?
Manel – Nós chegávamos lá e começávamos a pegar em coisas e isso.
Margarida – E depois começam a fazer o quê?
Manel – Qualquer coisa.
Margarida – E é o quê essa coisa? São casas?
Manel – Sim, para nos guardarmos da chuva. Às vezes ficamos lá à chuva. E ficamos bem guardados. Com pneus ficamos bem.
Margarida – Usam os pneus para fazer abrigos?
Manel – Só precisamos de uma caixa, redonda, mas grande, e um cartão liso ou madeira ou algo tipo madeira. É só preciso isso.
Margarida – Porque razão precisam do dinheiro?
Manel – Se tivermos em caso crítico temos que comprar cartão.
Margarida – Uma vez falaste-me em loja.
Manel – Pois é. Nós às vezes fazemos lojas. E trocamos coisas. Trocamos uma tesoura por 1000 euros em dinheiro.
Margarida – Careiros.
MX – Há muita inflação na brincadeira.
Manel – Uma tesoura é difícil de encontrar lá. 
MX – É verdade.
Manel – Só existem três tesouras.
Margarida – E é importante a tesoura?
Manel – Claro que é importante.
Margarida – Porquê?
Manel – Para fazer buracos nas coisas e enfiar lá cordas. Se tivermos um pau também podemos fazer isso.
Margarida – Há objectos mais valiosos e mais importantes.
Manel – Uma corda vale 50 euros. A fita-cola vale 2000 euros.
Margarida – Então vocês são negociantes, fazem as lojas para terem materiais para vender aos outros.
Manel – Sim, e temos de ter materiais pelo menos. E uma panela vende-se por 10 euros, porque há muitas. E um apagador de giz vendemos por…
Margarida – E qual é a coisa mais barata?
Manel – Não sei. Não é o pneu. Não há coisas mais baratas, é tudo caro.
MX – É tudo valioso.
MX – Não há promoções no sítio onde vocês vendem?
Manel – Há-de haver, mas é raro haver.
MX – E coisas más? Situações que te tenham feito sentir irritado, frustrado, nervoso, magoado com alguém nesse contexto? Tipo discutirem por algum material ou porque tu querias uma loja e alguém queria um castelo.
Manel – Não, não é nada disso. Fazemos tipo um castelo meio forte meio base meio casa. Mas é por causa do dinheiro que os meus amigos… dizem que têm aquele dinheiro, apanharam aquele dinheiro, e às vezes acusam-me de ter roubado o dinheiro deles, da casa deles. É só por causa do dinheiro.
Margarida – Money makes the world go ‘round.
MX – Eu percebo que os materiais são uma coisa muito importante, e percebo que vocês discutam muito por causa dos materiais. Mas da maneira como tu estás a falar, parece que não acontece mais nada, parece que não há uma história, parece que vocês não se organizam, parece que vocês não procuram quem quer brincar convosco, parece que só estão ali sentados com as rolhas, a mostrar o dinheiro.
Margarida – Eu acho que se passam coisas lá dentro que têm que ver com a maneira como se relacionam. Vou contar um caso, posso Manel?
Manel – Diz.
Margarida – Uma vez o Manel estava muito chateado porque tinha organizado a loja toda, ele é que organizou, parece que eles têm funções.
Manel – É o organizador, é o construtor… mas têm que ser todos construtores, porque dizem que eu não ajudei em nada, mas organizei aquilo tudo.
Margarida – Ele diz que organizou a loja toda e que depois chegou lá alguém e disse que afinal a loja não era dele.
Manel – E despediram-me.
Margarida – E despediram-no.
Manel – E também há níveis. Quem entra na nossa loja tem que estar no nível 10 pelo menos. E os profissionais já estão no nível 30 e tal.
Margarida – E há crianças das outras turmas que também vão para a vossa…
Manel – Ah não. Só o 3º ano da nossa turma. E há alguns que até nem vão porque são do nível 1.
Margarida – Ah, vocês têm níveis.
Manel – É, cada vez que constroem mais. Tipo o Marco era do nível 10 e já está no nível 20 e tal.
Margarida – Porquê? É muito bom a construir?
Manel – Não é o melhor que está ali.
Margarida – Mas não é bom a organizar? Cada um tem a sua função, não é?
Manel – Sim, mas o Marco é traidor.
Margarida – É espião?
Manel – Não. Ele tem uma loja, depois leva coisas da loja dele para a nossa loja. Mas ele é da nossa loja!
Margarida – É contrabando.
Manel – É contrabando.
MX – É um caso de espiões.
Manel – Não é espiões, é tipo…
Margarida – Há muitas coisas a acontecer nesse submundo.
Manel – Há, muitas.
MX – E diz-me uma coisa Manel, tu é que começaste a falar em casa daquilo que acontecia nesses recreios diferentes? Começaste a falar à mãe ou a mãe ficou a saber e perguntou-te? Como foi? Tens ideia?
Manel – O quê?
Margarida – Quando havia o Brincapé…
Manel – Ah, foi bom.
MX – Estou a perguntar se foste tu que começaste a falar em casa sobre o Brincapé ou a mãe é que te perguntou.
Manel – Ninguém perguntou, eu disse.
MX – Okay.
Margarida – Ele disse, mas eu comecei a saber do projeto porque li no Facebook. Não, a primeira vez que eu soube do projeto foi numa reunião de pais, havia um cubo para construir. E depois eu li que era sobre brincadeiras na rua e achei aquilo muito interessante, mas não tive a oportunidade de investigar. Depois o professor contou-me numa reunião de pais, em Janeiro, que havia um projeto e que vocês tinham ido observar os intervalos, como é que as crianças brincam. Coisa que eu já tinha estado a observar, noutras atividades. Já tinha estado só a ver. Achei isso muito bom, muito bom sinal, alguém que vai ver. E depois vi os pneus e não sei quê… e comecei a ficar alerta. O que é que seria? Que projeto era esse? E depois é que fui ver, no facebook comecei a ver a concretização e os…
Manel – Espera aí, vem mais alguém à reunião?
Margarida – Somos só nós, não é?
MX – Não, somos só nós, Manel.
Margarida – Quem é que querias ter aqui?
Manel – Não sei…
MX – Devíamos ter convidado mais gente, mais uns amigos teus, isso é que era. Sabes que nós, não temos assim contacto… A tua mãe foi o único pai, ou única mãe, ou o único adulto que fez perguntas sobre o projeto e que, enfim, foi uma coincidência talvez. E então nós decidimos aproveitar essa ligação e fazer mais perguntas. Queríamos saber, queríamos assim perceber melhor, qual é que tinha sido a tua experiência do Brincapé? Se tinhas gostado, se não tinhas gostado? O que é que tinha sido bom, o que é que tinha sido mau? Que tipo de materiais é que tu tinhas gostado? E também queria perguntar-te a ti Margarida, perceber melhor o que é que te chegou e se tu identificas coisas boas ou coisas más ou se há alguma coisa que queiras apontar relativamente a este tipo de projecto. E também, de certa forma para terminar, perceber um bocadinho, vocês enquanto família, qual o peso que dão ao brincar? De que forma é que sentem que isso é uma prioridade ou não? E porquê?  De que forma é que isso está presente nas vossas vidas, mesmo enquanto adulto/criança?
Margarida – Se voltasses à escola gostavas que estivesse lá o projecto Brincapé?
Manel – Sim! Sim muito.
Margarida – Muitas vezes lá?
Manel – Os dias todos.
Margarida – Os dias todos.
Manel – No intervalo da manhã, no intervalo da tarde, no intervalo ainda mais tarde.
Margarida – Que estivesse mais vezes.
Manel – Mais vezes e mais dinheiro, também vale dinheiro.
Margarida – Também vale dinheiro. O Manel gosta de fazer coleção de dinheiro.
Manel – Eu tenho bué dinheiro, eu tenho trezentos e trinta e tal euros.
Margarida – Tem espírito Tio Patinhas ou coisa assim.
Manel – Eu sou o Tio Patinhas.
Margarida – Eu como vos disse, eu acho magnífico, acho super importante que finalmente um projeto que é centrado na ideia do brincar, e que isso é a coisa mais importante, para mim é magnífico, disse-vos logo desde o início, acho mesmo muito bom que isso tenha tido peso para vocês ganharem o projecto BIP-ZIP. 

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