Macaquinho no Brincapé – Recreios II

O projecto Brincapé é uma parceria entre a APSI – Associação para a Promoção da Segurança Infantil e o 1,2,3 Macaquinho do Xinês com o apoio do programa BipZip (Câmara Municipal de Lisboa).

Chegamos, recapitulamos o que aconteceu na sessão anterior e retiramos os materiais soltos – a tralha – armazenada num espaço designado pela escola. Dispomos os vários materiais no espaço do recreio, tendo o cuidado de não os deixar demasiado juntos para que todas as crianças possam conseguir algum material. Muitas vezes deixamos algumas composições/combinações de materiais: uma lona atada a uma grade, um comando de televisão escondido dentro de uma caixa de cartão, uma panela cheia de folhas secas. Nesse processo, tentamos olhar o espaço e avaliar a possibilidade de introduzir novidade, imprevisibilidade, risco. Algo que desafie as emoções, as relações de causa-efeito, os hábitos instalados. Alguns materiais ficam no nosso bolso (giz, botões-moedas-de-ouro, fita-cola, trapilho, calendários de bolso, rolhas) e podem ser introduzidos na brincadeira a pedido ou para desequilibrar forças entre crianças ou para, subtilmente, potenciar uma construção.

Toca para o recreio de almoço, começa o tropel, os gritos e toda aquela energia – gerada pela necessidade desesperada de brincar sem agendas, sem objectivos definidos pelos adultos – inunda o recreio. Algumas crianças já vêm com planos sobre ao que é que vão brincar, outras agarram o que podem, outras esperam que outras crianças lhes tragam objectos, outras observam o que está a acontecer, esperando por uma oportunidade de entrar numa brincadeira fazendo-se úteis. No outro dia uma criança dizia para outra: “Não sabes como entrar na brincadeira deles? Chegas lá e perguntas o que é que eles precisam. Vais arranjar e depois dás-lhes e eles deixam-te entrar. É fácil!” Passados cerca de 20 minutos, maior parte das crianças já está inserida num grupo e os materiais parece que desaparecem, avistando-se apenas amontoados de caixas de cartão e pneus. Uma volta atenta permite perceber que dentro de cada grupo há uns que constroem, outros que organizam, outros que dão ordens, outros que escondem todos os tesouros, outros que descalçam os sapatos e gozam o ócio do alto de um pneu. Algumas crianças preferem jogos de luta e de perseguição que envolvem muita corrida, muita negociação de regras, às vezes dor e muita excitação ao desvio de um golpe (quase) mortal. Estes grupos por vezes procuram aumentar o risco das suas brincadeiras, entrando pelas outras brincadeiras a dentro e esperando retaliações das outras crianças. Nós, adultos, temos que muitas vezes clarificar que o que é divertido para uns não é divertido para outros, que ninguém deve ser obrigado a brincar a nada. Por vezes, temos que nos dispor a ser nós, adultos, os alvos das lutas para ajudar as crianças a sentirem-se mais realizadas, desafiadas e poderosas, criando uma contenção que protege as outras crianças.

Depois muda o turno de almoço e algumas turmas têm que sair para irem almoçar e vêm outras turmas que já almoçaram. Este momento é muito delicado porque obriga algumas crianças que estavam totalmente imersas nas suas brincadeiras, que muitas vezes tinham acabado de construir a sua loja e que iam agora ganhar mais profundidade na sua brincadeira, a abandonar o recreio. Algumas crianças sofrem tanto com esse momento que se escondem, que ignoram o toque, que resistem ao chamado dos colegas, da equipa da cantina ou dos professores. Algumas crianças já aprenderam que podem deixar as suas construções com crianças de outros anos, o que cria toda uma dinâmica de interação entre crianças que muitas vezes não brincam juntas e também dá a oportunidade a muitas crianças de brincarem com objectos que não são rápidas a conseguir ou para os quais não têm poder de troca. Ao longo do tempo também temos visto uma dinâmica de trocas a crescer, muitas vezes culminando na criação de moeda que circula sob a forma de rolhas de cortiça, pedaços de cartão com números escritos – incluíndo o símbolo do infinito -, calendários de bolso, cartas, botões. Como ouvimos uma criança dizer uma vez: algumas crianças ”roubam grátis”. Porque não têm nada para trocar, porque querem entrar numa brincadeira e não sabem como, porque “roubar grátis” provoca uma perseguição que pode ser muito divertida.

A fita-cola era um material muito cobiçado, usado à descrição pelas crianças para construir casas e lojas de cartão e até para cobrir a superfície de pneus. Para desafiar a capacidade de adaptação das crianças e para não permitir que algumas brincadeiras ficassem tão limitadas por falta de um “conector” de materiais, retirámos a fita-cola das sessões e introduzimos o trapilho cortado aos bocados e cada vez que a fita-cola era pedida, nós oferecíamos o que tínhamos. Inicialmente muitas recusaram, outras perguntaram como poderiam substituir a fita-cola, outras pediram ajuda para ajudar a fazer os nós. Com o tempo mais crianças, começaram a valorizar o trapillho e a usá-lo para atar as lonas, “coser” cartão, trocar por outros materiais. E depois voltámos a trazer a fita-cola para continuar a aumentar as possibilidades de brincadeira e permitir às crianças escolherem de que forma pretendiam fazer as suas construções.

No final da sessão, o recreio parece o fim de uma feira ou de um festival de música. Algumas crianças ficam tristes ou com raiva por serem interrompidas e destroem tudo o que estiveram a construir ou as construções deixadas para trás. Muitas crianças mostram relutância em ir embora para as aulas. Fazem de conta que nos estão a ajudar a reunir os materiais, escondem-se nas caixas de cartão e nas lonas. Outras pedem expressamente aos professores para ficarem a ajudar e deliciam-se a ver e a mexer nos materiais que por algum motivo não usaram nas suas brincadeiras.

Os materiais são reunidos, vistoriados, organizados e armazenados novamente. Conversamos brevemente com os adultos que fazem supervisão do recreio e ouvimos as suas preocupações, às vezes aproveitando para dar a conhecer melhor o trabalho que fazemos outras vezes para nos rirmos sobre as brincadeiras surpreendentes que foram observadas. A sessão termina com uma reflexão entre nós sobre a dinâmica da sessão, os comportamentos observados, o nosso próprio comportamento, as diferentes estratégias que usámos para apoiar as crianças nas suas brincadeiras. Se conseguimos ajudar a criança a ver várias possibilidades na hora de decidir se queria lutar por um objecto ou não, se não nos metemos numa brincadeira sem sermos convidados só porque também queríamos brincar, se demos uma resposta à criança que a surpreendeu fazendo-a desviar a atenção de alguma raiva instalada, se facilitámos a entrada nalguma brincadeira perguntando quais as regras e quem mandava ali, se ouvimos a criança ou se nos ouvimos a nós. Às vezes também terminamos a sessão com angústia por sentirmos que usámos o nosso poder enquanto adultos para reequilibrar forças dentro do recreio ou porque para protegermos as necessidades de uma criança esquecemos as necessidades de todas as outras ou porque fizémos as nossas concepções de moral, justiça e equidade sobrepôr-se às perguntas da criança. Fazemos o que fazemos, questionamo-nos sobre isso, pensamos em conjunto sobre como melhorar, sabendo que permitimos a muitas crianças terem no seu dia um tempo e um espaço dirigidos pelas suas próprias regras, desejos e necessidades – uma dose de felicidade em estado concentrado.

O projecto Brincapé é uma parceria entre a APSI – Associação para a Promoção da Segurança Infantil e o 1,2,3 Macaquinho do Xinês com o apoio do programa BipZip (Câmara Municipal de Lisboa).

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