Macaquinho no Brincapé – Uma reflexão

A distribuição das crianças no espaço do recreio é completamente diferente nas sessões do Brincapé. As crianças formam mais grupos, criando alianças, construindo em conjunto, atribuindo-se diferentes papéis (uns vasculham os materiais, outros defendem as construções, outros decoram ou organizam os materiais). As crianças brincam ao faz-de-conta (lojas, casas, etc), inventam os seus próprios jogos e personagens e definem-os com os materiais disponíveis (uma bola de futebol rota é cortada para fazer um capacete, um pedaço de trapilho serve para segurar um arco e flecha, uma t-shirt velha cortada para caberem duas cabeças que se passeiam no recreio). Também são criadas brincadeiras desafiantes como descer de um banco de pedra em cima de um pneu, saltar de uma escada para um monte de cartão, ficar escondido dentro de uma caixa fechada ou debaixo de uma lona preta. E mais, as crianças criam muitas vezes espaços de intimidade (debaixo de lonas, debaixo de caixas de cartão, etc), espaços secretos onde podem descansar, conversar ou sentirem-se seguras do rebuliço do recreio. O jogo da bola ocupa menos área do recreio porque compete com os outros materiais, o que permite às crianças que não gostam deste tipo de jogo ganharem mais espaço e também assumirem outro tipo de protagonismo. Da mesma forma, crianças que são líderes no jogo da bola podem mudar de papel quando os materiais estão disponíveis. Algumas crianças passam pela experiência de ficar todo o recreio a brincar a mesma brincadeira (cavar um buraco, saltar de uma escada para um monte de cartão), imersas no seu mundo, motivadas pelas suas necessidades e sem imposição de um adulto. Os conflitos são muitas vezes desfeitos com trocas de objectos, com a ajuda de outras crianças que se propõe como moderadoras, discutindo conceitos de justiça, igualdade e até de lealdade. Por vezes, a raiva e a agressividade são expressadas e dirigidas para um pneu, uma caixa de cartão, poupando o confronto físico e emocionalmente intenso. Os brinconautas esforçaram-se sempre por mostrar às crianças que estavam ali para as ouvir, servir, dar segurança e para lhes dar um recreio em constante mudança, estimulante e desafiante. Também conversaram com os adultos tentando convencê-los a relaxar algumas regras e convidando-os a serem defensores do Direito a Brincar. Se ainda tínhamos alguma dúvida, com o trabalho desenvolvido no âmbito do projecto Brincapé, agora estamos certos que este tipo de trabalho e de filosofia são fundamentais para trazer mais bem-estar e felicidade às crianças.

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